Era pra ser um post sobre o valor da amizade e da solidariedade. Queria falar das minhas amigas do Peru que nos emprestaram suas casas, tempos, carros e bracos para nos apoiar nessa mudança.
Queria falar da Guida e do Eduardo, que receberam toda nossa trupe em nossos últimos dias de Lima. Da Celina, que me levou pra cima e pra baixo e ainda embalava o Lucas quando minha coluna já estava em frangalhos; ou da Lu, que me presenteou coisas lindas do acervo pessoal de seu filhote, também Lucas, incluindo uma sunga de praia que o meu Luquinhas já pode até usar; e da Soraia, que também serviu de motorista e faz-tudo, sempre doce e carinhosa.
Era pra falar dos almoços de despedidas – um do Clube da Cachaça e outro entre amigos. Ambos, regados a feijoada e caipirinha.
Era pra falar de tio João e tia Lucía, que nos emprestaram uma casa em pleno Itaim até que a gente encontre a nossa própria. E ainda nos ligam todos os dias pra saber se está tudo bem. Ou do meu irmão, que noite dessas enfrentou três horas de transito só para nos trazer edredones e mantas, já que extemporaneamente faz um frio danado aqui em São Paulo, em pleno verão.
Mas, infelizmente, vou aproveitar este espaço e o calor da emoção pra falar da última, ou melhor, da primeira, que nos aconteceu.
No começo da tarde desta quarta, 3/12, menos de 24 horas depois de nossa chegada, paramos numa loja da “Doce Mania”, na rua João Cachoeira, no Itaim, pra tomar um café e comer um docinho.
Como tínhamos gostado do clima do local e também pelo fato de ter wi-fi, coisa que ainda não é tao comum no Brasil, voltamos lá por volta das seis da tarde desta mesma quarta.
Entramos na seguinte ordem: eu na frente, o Renato logo depois e o Mateus que, obviamente não gosta mais de andar de mãos dadas com a gente o tempo todo, entre nós dois.
Quando nos preparávamos para sentar, nos demos conta que o segurança do local segurava o Mateus pelo braco na tentativa de expulsá-lo dali, provavelmente, presumindo que ele fosse um “menino de rua”.
Tudo aconteceu muito rápido e quando o Renato olhou pra ele, já em posição de galo de briga, o segurança recuou, perguntando:
- A criança está com vocês?! – assim, desse jeito. Com estas mesmíssimas palavras.
Claro que começamos uma discussão, especialmente pela agressão física (o cara segurou o Mateus pelo braco!), e o rapaz, na defensiva, ainda teve a pachorra de responder (com o sorriso mais cínico do mundo): “desculpa. Eu estava só perguntando”.
Nos levantamos para sair absolutamente transtornados, quando a gerente se aproximou para se explicar. O Renato apenas levantou a mão pedindo que ela se calasse, porque estávamos tao perplexos que, certamente, iríamos começar uma briga daquelas, que não gostaríamos que o Mateus presenciasse.
Saímos dali, paramos em outro café, também com internet sem fio, entramos no site da “Doce Mania” e mandamos um email para a gerencia geral, que reproduzo abaixo, assim como a resposta da loja, que copio logo depois.
Na volta pra casa, o Renato parou na loja outra vez, porque eu pensei que na confusão tivesse esquecido minha bolsa por lá (depois, me dei conta que nem tinha saído com ela).
A gerente se aproximou e, na tentativa de se desculpar mais uma vez, usou como argumento o fato de o segurança não ser funcionário da loja e, sim, de uma empresa terceirizada, responsável por cuidar de diversos estabelecimentos da rua.
Ou seja: terceirizaram a sujeirada.
Como, aliás, tem sido praxe nas empresas que, ao contratarem prestadoras de serviços para cuidar da segurança de seus espaços, acreditam que podem se eximir de qualquer responsabilidade quando uma situação de abuso acontece. Vide a história horrorosa das Casas Bahia, recentemente.
No nosso caso, imaginem a cena: o segurança, que estava do lado de fora, viu o Mateus entrar, presumiu que ele nos seguia para nos importunar, (como ele não intuiu que era nosso filho, ainda é um mistério para mim) e entrou logo depois para retirá-lo dali, segurando-o pelo braco.
Partindo do pressuposto que o Mateus vestia uma roupa absolutamente normal para um menino de classe média, qual terá sido o critério usado pelo jovem (também ele afro-descendente miscigenado) para tomar tal atitude?! E a outra pergunta que não quer calar: ele atuaria dessa maneira se não tivesse o aval e a orientação da loja para tal?!
Email Renato:
Caro sr./Sra.,Na tarde desta terca-feira, 3/12, eu e minha família tivemos uma experiência profudamente desagradável na loja que vocês mantêm na Rua Joao Cachoeiro, no Itaim.
Minha esposa, meu filho de 7 anos e eu entramos na loja pela segunda vez neste mesmo dia para fazer um lanche. Já havíamos ido ali mais cedo e havíamos gostado do clima e da qualidade dos produtos.
Resolvemos voltar de novo de tarde e me surpreendi ao ver que um funcionário da loja segurava o meu filho pelo braco. Eu lhe perguntei qual era a razao disso e ele me perguntou se “a crianca estava com a gente”.
Ou seja, a intencao era claramente a de expulsá-la da loja, na premissa talvez de que seria um menino de rua. Ainda que fosse, ninguem tem o direito de tratar uma crianca, qualquer crianca, desta maneira. É uma questao de princípios, de respeito aos direitos do próximo, uma questao de valores fundamentais.
Aliás, como ele estava claramente junto com a gente, a norma da educacao e do bom trato aos clientes obrigaria o funcionário a nos perguntar, de maneira sutil e educada, se a crianca estava com a gente. Jamais teria o direito de tocá-la daquela maneira – ou de qualquer outra maneira.
O pior é que acredito que dito funcionário atuou “com a melhor das intencoes” para salvaguardar os próprios interesses da loja, talvez até mesmo sob alguma orientacao da gerência. Ficamos tao profundamente indignados com tal acao que nos decidimos a sair da loja imediatamente e evidentemente tomamos a decisao de nao mais regressar ali.
É claro tambem vamos relatar este fato às nossas redes de relacoes, porque nao queremos que amigos ou familiares corram o risco de passar pelo mesmo tipo de situacao. Somos jornalistas e mantemos blogs na internet, nos quais também vamos a relatar esta lamentável experiencia.
Moramos setes anos fora do Brasil e em menos de 24 horas de voltar a morar no país somos surpreendidos por uma situacao como essa, cujo contexto compreendemos perfeitamente dado a cultura racista e socialmente exclusiva que permeia as nossas relacoes sociais.
Espero que esta mensagem sirva para que voces revejam o treinamento dado aos seus funcionários e seus protocolos de relacionamento com os clientes e que situacoes como essas nao voltem a se repetir em uma loja que vende o prazer de comer bem em eum ambiente agradável. A partir de agora, cada vez que me lembre da Doce Mania ficarei com um gosto amargo na boca.
Renato de Paiva Guimaraes
Resposta “Doce Mania”:
Prezado Sr .Renato:
Lamentamos profundamente o ocorrido e informamos ja terem sido tomadas as providencias cabíveis pela empresa de segurança contratada, substituindo imediatamente o funcionario em questao.
Gostariamos imensamente que o sr. aceitasse as nossas desculpas e agradecemos sua disposição de se dar o trabalho de nos informar o ocorrido, pois criticas ajudam no nosso desejo de constante aperfeiçoamento.
A DIREÇAO