Amamentar, para mim, foi muito fácil e natural. Tanto que curiosamente nunca me senti a melhor pessoa do mundo para falar sobre o tema, já que comigo não houve traumas. Eu não teria nada que ensinar, creio. Tive a sorte de ter bastante leite e, principalmente, de ter dois filhos que não apresentaram grandes dificuldades para mamar.
O Mateus, salvo algumas pequenas torpezas da minha parte no começo, agarrou o peito no terceiro dia de nascido e só largou sete meses depois.
E o Lucas, apesar de todos os percalços – de ter nascido bem prematuro, com um peso de apenas 1.160 gr (baixando a 1 kg na primeira semana), de uma infecção potencialmente grave que o contagiou pouco depois de nascido e da sondinha na boca até três semanas atrás, que atrapalhava um pouco a “relação” boca-peito - mostrou muita vocação no tema.
E é sobre isso que quero falar aqui. Sobre a minha experiência de aleitamento materno com um bebê que nasceu de 28 semanas.
Não quero dar receita de bolo, nem ensinar ninguém o que fazer. Cada pessoa que vive uma experiência assim deve buscar o que melhor lhe convém, o que é melhor para o seu bebê. E qualquer que seja o caminho adotado, será o conveniente, desde que sob orientação médica, obviamente.
Mas, queria fazer o meu relato, aproveitando essa blogagem coletiva sobre A Semana Mundial da Amamentação.
Antes, quero salientar que não é fácil, mas ao mesmo tempo, enfatizar que, sim, é possível amamentar um prematuro. É possível, até, de repente, alimentá-lo apenas pelo peito - acomodando as expectativas e tomando certos cuiddos, claro - e apostando que vale a pena.
Meu bebê e eu - Vocês não podem imaginar o alívio que senti quando o Lucas agarrou o peito e succionou como gente grande, desde a primeira vez que o colocamos, quando ele nem tinha 1,300 gr.
Até então, para estimular a produção de leite, eu retirava com a extratora de três em três horas, coisa que faço até hoje, aliás. Assim que ele começou a mamar de verdade, aumentei a produção nuns 30 a 40%.
Claro que tudo isso aos poucos, com duração de no máximo cinco minutinhos no começo, muitos cochilos no caminho, paradinhas pra respirar e complementos alimentares de leite materno depois; até o momento que ele foi aumentando o tempo da mamada, agüentando mais, conseguindo coordenar o trinômio sugar-deglutir-respirar, e a gente foi se sentindo seguro pra ir tirando os complementos pouco a pouco.
Já há algum tempo ele se alimenta apenas pelo peito durante o dia, recebendo complemento (de leite materno) apenas de madrugada, quando estou em casa. Seu peso, hoje, já é de mais de 2 kg e só não recebeu alta porque terá uma pequena cirurgia de hernia na segunda-feira.
E todo esse trabalho só foi possível porque cai nas mãos de Jaime Zegarra, pediatra absolutamente radical na defesa do aleitamento materno. Nunca pensei em encontrar um médico assim, especialmente no trato com prematuros.
Pra ele, o Mamãe Canguru só faz sentido se acompanhado de tentativas constantes de amamentação. Ele costuma brincar, dizendo que alimentar um bebê por sonda, por exemplo, é o mesmo que seria pra gente comer uma comida bem gostosa misturada no liquidificador, feito patê. Horrível.
Obviamente, isso não é unânime. Outros pediatras, lá mesmo na clínica, apesar de defenderem o uso do leitinho da mamãe, não hesitam em prescrever fórmula e mamadeira para o desenvolvimento do bebê prematuro. Afinal, o que a gente mais quer e busca é que o pequeno ganhe peso o mais rápido possível, para podermos levá-lo pra casa. E isso também está bem. Funciona e bem. Mentiria, se dissesse que não.
Sem falar que Zegarra, com todo o seu radicalismo, só continua insistindo quando sente reciprocidade por parte dos pais, da mãe, no caso. Eu respondi a exigência, provavelmente pela boa experiência que tive com o meu primeiro filho, e isso o fez se sentir completamente à vontade para cobrar essa postura da minha parte.

Não é fácil. Às vezes, até mesmo frustrante, porque criança prematura alimentada pelo peito engorda menos rápido que aquela de fórmula ou mesmo de leite materno dado pela mamadeira. Um dos motivos é que ela gasta muitas das calorias ingeridas, pelo esforço desprendido na operação.
Enquanto sua “vizinha”, alimentada apenas por mamadeira, engorda entre de 40 e 60 gr por dia, por exemplo, o Lucas engorda, atualmente, uns 20 gr, 30 quando muito.
Sem falar que dá um pouco de medo. Muitas vezes no começo ele apresentava cianose, ou seja, ficava roxinho por ter perdido a respiração. Ai, eu tinha que parar, tirá-lo do peito, fazê-lo tomar fôlego massageando de leve suas costas, por exemplo, e começar de novo.
Como vocês podem imaginar, tudo isso exigia de mim muito sangue-frio e uma força e crença enormes. Por pouco, eu não me desesperava. Chorei muito escondida no banheiro, confesso.
Outra coisa difícil de lidar é que enquanto ele estiver internado, amamentá-lo significa estar no hospital por mais de 13 horas, com saídas esporádicas para comer rapidinho e ir ao banheiro.
Enquanto era só o Canguru, eu ainda conseguia dar uma fugida em casa pra ficar um pouco com o Mateus. Quando começou a amamentação propriamente dita, isso já não foi possível, especialmente porque é “livre demanda”. Ou seja, enquanto ele pedir, estamos a postos.
E, muitíssimas vezes, ele come no horário da mamada e uma hora depois está pedindo mais. E eu tenho que estar lá.Tudo isso significa sacrificar muitíssimo o meu filho mais velho. A gente praticamente não se vê há dias e ele tem sofrido, claro. Felizmente, isso está bem perto de acabar.
Eu tenho convicção que todo esse sacrifício trará ótimos frutos num futuro bem próximo. Primeiro, pelos motivos que a gente sabe tão bem, da importância do leite materno.
Depois, porque amamentar contribui enormemente no desenvolvimento cognitivo da criança. No caso de um prematuro, imaginem o quanto isso é fundamental. Além disso, porque ele estará muito mais protegido de infecções e o bichinho bem que precisa de toda defesa do mundo.
E, finalmente, pelo resultado mais visível, que pessoalmente credito ao aleitamento, que é o fato do Lucas apresentar um excelente desenvolvimento.
Ele é super esperto, é o que menos dorme durante o dia e apresenta a melhor cor e aparência lá no berçário (e isso é diagnóstico médico e não apenas coisa de mami coruja, não, viram?!): grandes e gordas bochechas rosadas, pra começo de conversa.
Coincidência?! Pode ser. O que vocês acham?!
Mais aqui e aqui. E o Renato também publicou o seu lado da história. Vai lá dar uma lidinha.
PS: Esta foto não é minha. Surrupiei daqui. Prometo que durante o dia, publico outra, do Luquinhas agarrado no meu peito.