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do valor da ternura

Muito se fala da necessidade de prestarmos mais atenção aos pequenos gestos cotidianos. Não tem lugar-comum mais batido que aquele que proclama que a correria diária nos embrutece e blábláblá. Bom, é verdade.

Por isso, às vezes, quando a gente protagoniza ou mesmo assiste determinados episódios da vida real (vixe, quando lugar-comum!) com um pouco mais de atenção, pode mesmo se emocionar.

A gente estava voltando da casa do meu irmão quando percebeu um problema no carro. Tivemos que parar num posto pra esperar o carro esfriar. Isso em plena avenida Consolação, as onze da noite.

Era tarde, estávamos cansados, o Lucas estava super enjoadinho, gripado e com fome. Para piorar, fazia um frio danado do lado de fora e nem dava pra sair com ele, com o risco de piorar mais ainda o quadro.

Enquanto o Renato conversava com o frentista, eu observava uma moradora de rua que vinha chegando no posto. Era magrinha, vestia roupas folgadas e só dava pra perceber que não era um moleque, pelo jeito, ainda feminino, que ela caminhava.

Achei que elas nos olhava com insistência, volta e meia saindo de suas divagações e seus diálogos imaginários, para mirar, de soslaio, pra dentro do carro.

Pra mim, ela parecia drogada, meio fora de si. Pensei: “é crack”. E fiquei com medo.

Continuei brincando e conversando com os meninos, sem perdê-la de vista um só minuto. Chamei o Renato e disse pra ele ficar atento também, porque tinha medo que ela se aproximasse muito, fizesse um escândalo, quisesse dinheiro, enfim, nos criasse uma situação mais estressante que já estávamos vivendo.

Ele respondeu que também já tinha sacado e que estava de olho.

Aí, a vi se aproximando de um outro carro, conversando com o motorista, que lhe pagou uma coca-cola e um pão-de-queijo. A partir daí, a perdi de vista, até porque o Lucas me cobrava mais atenção.

De repente, ela já estava de saída.  Ia tranqüila, com o lanche nas mãos e já não me parecia tão drogada. “Vai ver, nem estava”, pensei.

Aí, ela parou. Nos olhou mais uma vez, sorriu, abaixou a cabeça, deu adeuzinho para o Lucas e como ele também devolveu o olhar, resolveu se aproximar.

Voltei a ficar assustada. Na verdade, um pouco mal humorada, achando que ela ia ficar enchendo o saco, não falando coisa com coisa, procurando confusão.

- Tó. – estendo o pacote em nossa direção – Eu sei o que é passar fome e você ficou me olhando muito, aposto que está com fome. Criancinha não pode ficar com fome.

E entregou o pão-de-queijo ao Lucas.

A voz era suave, sóbria, e o sorriso, terno. Contou que tinha três filhas, todas adolescentes, que não “viviam” com ela. Era bem magrinha mesmo e minha impressão sobre ela usar droga ainda persistia, mas o medo, não.

Conversou mais um pouco, insistiu com a história do pão-de-queijo, “é pra ele comer, viu?” e depois foi embora, nos abençoando.

Já no sábado, enquanto fazia as unhas, a depiladora saia com um inseto pendurado no dedo, pra soltá-lo do lado de fora do salão. Quando a recepcionista afirmou:

- Nossa, que perda de tempo. Inseto eu mato na hora.
A depiladora respondeu:
- É um filhotinho de abelha. Ela me dá a cera para eu trabalhar, como vou matar um bichinho desses?!

Meu olho até encheu de água. Sei lá, mas estas humanidades me parecem muito tocantes.

4 Pitacos para o post “do valor da ternura”

  1. em 29 Jun 2009 às 8:50 am maria

    Que mistura de sentimentos eu senti com esta história Vanessa. Também fiquei emaocionada. Obrigada por compartilhar.

    beijos, maria

  2. em 29 Jun 2009 às 6:57 pm Renato

    Eu acho que tem desses anjos inconscientes que passam pelas nossas vidas, sem mais nem menos, deixam uma marca e seguem adiante.

  3. em 30 Jun 2009 às 5:35 am Marcia Ka

    ” Eu sei o que é passar fome” deve ter sido duro de ouvir …

  4. em 01 Jul 2009 às 7:30 am Dani

    Uau! Sei lá porque mas confesso que a segunda história me deixou ainda mais emocionada que a primeira.

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