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neruda

Adoro Neruda! E cada vez que o leio, mais certeza tenho dos motivos para tanto. E, diariamente, vou descobrindo e aprendendo sobre ele pelos caminhos mais improváveis.

Agorinha mesmo estava colocando o Mateus para dormir e dentre os livros que tínhamos escolhido para o “conto de boa-noite”, estava “Neruda para niños”, uma publicação que reúne alguns poemas do mestre com ilustrações maravilhosas. Lá está, por exemplo, “Puedo escribir los versos…” (es tan corto el amor y es tan largo el olvido…), que me faz chorar cada vez que leio, e outra que homenageia Machu Pichu .

E entre uma folha e outra, topo com uma “ode ao tomate”! No começo, ri, pelo cômico do tema. Mas, depois, ao longo da leitura, percebi que essa homenagem a um assunto tão prosaico não só é linda, como sumamente delicada e sensual. Impressionante.

É em momentos assim que me deparo com a minha insignificância…

Ainda que já o fizesse antes, o projeto de escrever “odes” começou de verdade em 1952, quando Neruda e sua companheira, Matilde, passaram uma temporada em Sant’ Ângelo, nas Ilhas de Ischia, na Itália (“o carteiro e o poeta”???). No dia 24 de junho daquele ano, Neruda escreveu “O homem invisível”, incluído em “Odes Elementares” (Odas Elementales), no qual reflete seu esforço em escrever pelo “povo”, pelo homem comum.

Para fazer isso, escolhe temas familiares desta gente simples, e assim suas odes possuem uma simplicidade e um humor não presente em sua obra previa. Em sua “Oda al caldillo de congrio“, por exemplo, Neruda conjura imagens familiares do povo chileno: o pescado,o coentro, o alho, o tomate, os camarões, etc. De fato, Neruda dá uma receita de um prato típico (lleven a la cocina el congrio desollado, su piel manchada cede como un guante y al descubierto queda entonces el racimo del mar, el congrio tierno reluce ya desnudo, preparado para nuestro apetito), mas o faz de uma maneira que glorifica o comum, “as essências do Chile”.

Neruda escreveu, ainda, as “Novas Odes Elementares” e “Terceiro Livro das Odes”. As “odes” cumprem um processo de simplificação poética, do surrealismo a poesia simples e vital. O poeta canta ao pão, ao tomate, à mulher, aos seus próprios sapatos e às flores amarelas da costa nativa.

“Oda al tomate”, por Pablo Neruda

La calle se llenó de tomates,
mediodia, verano,
la luz se parte
en dos mitades
de tomate,
corre por las calles
el jugo.

En diciembre
se desata el tomate,
invade las cocinas,
entra por los almuerzos,
se sienta reposado
en los aparadores,
entre los vasos,
las matequilleras,
los saleros azules.

Tiene luz propia,
majestad benigna.
Devemos, por desgracia,
asesinarlo:
se hunde el cuchillo
en su pulpa viviente,
es una roja viscera,
un sol fresco,
profundo, inagotable,
llena las ensaladas
de Chile, se casa alegremente
con la clara cebolla, y para celebrarlo
se deja caer
aceite, hijo esencial del olivo,
sobre sus hemisferios entreabiertos,
agrega la pimienta
su fragancia,
la sal su magnetismo:
son las bodas
del día
el perejil levanta
banderines,
las papas
hierven vigorosamente,

el asado golpea
con su aroma
en la puerta,
es hora!
vamos!
y sobre la mesa,
en la cintura del verano,
el tomate,
astro de tierra,
estrella repetida
y fecunda,
nos muestra sus circunvoluciones,
sus canales, la insigne plenitud
y la abundancia sin hueso,
sin coraza, sin escamas ni espinas,
nos entrega el regalo
de su color fogoso
y la totalidad de su frescura.

PS: Caldillo de congrio é uma espécie de sopa que se faz com peixe (congrio), mariscos, coentro, cebola e batata. Aqui, a receita da iguaria.

hit da semana: telefone, do “gang 90″ júlio barroso ( são três horas da manhã, você me liga, para falar coisas que só a gente entende. são três horas da manhã, você me chama e com seu papo-poesia me transcende. ó, meu amo-or, isso é amor…), numa versão deliciosa da sandra de sá. para ouvir, basta ir a esquerda de quem entra, logo depois de categorias e antes de imprescindíveis, e clicar no link…

4 Pitacos para o post “neruda”

  1. em 17 Oct 2005 às 11:16 pm Denise Arcoverde

    Vanessa, você desencavou uma das músicas que eu mais adoro na vida! hehehe… GRAAAAAAAAAAAANDE lembrança… Além do eterno Neruda, claro… esse blog é bem demais :)

    Beijo!!!!!!!!

  2. em 17 Oct 2005 às 11:43 pm vanessa

    Oi Lindona, que fofo! Também adoro essa música! Aliás, adoro a Gang 90 (e as Absurdetes!!!). E essa versao da Sandra de Sá ficou tao, assim, malemolente, né?! E Neruda é o que há! Taí outro “velhinho” do meu imaginário anciao… ;-)
    Beijos enormes,
    Van

  3. em 19 Oct 2005 às 1:52 pm

    Vanessa,

    Também adoro essa música.
    Uma versão dela que eu amo é com o Ira! e a Fernanda Takai (Pato Fu)… junta a voz grave do Nazi com a doçura da Takai… vale a pena conferir se você não conhece.
    Um beijo,

  4. em 19 Oct 2005 às 1:56 pm vanessa

    Olha só, nao conheco. Deve ser linda! Vou procurar, sim. Ótima dica.
    Beijoes,
    Vanessa

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