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Levamos as crianças na Parada Gay de São Paulo, neste domingo. O Lucas, de 2 anos, estava totalmente no clima, olhando pra tudo fascinado e curioso. Mateus, de 8, não. Ressabiado, assustado com o barulho e a aglomeração, demorou um pouco pra relaxar.

Foi a presença do Serginho e do Dicesar que o fez começar a largar a tromba. Ele literalmente se pendurou no alambrado para vê-los melhor! Serginho é miudinho, franzino, tem carinha de bebê. Parece um pós-adolescente. E Dimmy Kieer é absolutamente fascinante! De fato, eles foram os personagens LGBT dos últimos meses e exercem um fascínio enorme sobre as crianças e as senhoras. Minha mãe era apaixonada pelo Serginho, mesmo morrendo de medo de ter um filho gay!

Apesar dos debates sobre a despolitização da Parada, sinceramente acredito que esta festa, mesmo lembrando um grande desfile de carnaval (e sendo tratado somente assim por alguns), ainda tem muito de político na mensagem. Por exemplo, no tempo que ficamos por lá, vimos várias famílias com suas crianças. E eu acho uma postura política a pessoa levar os filhos pra participar da Parada Gay, mesmo que ela nem se dê conta disso.

O simples fato de estar lá já deve indicar certa predisposição à convivência e tolerancia, por exemplo, mesmo que a motivação primeira seja pelo curioso da situação. Sem falar que, em alguma medida, aproximar o seu filho de um ambiente  em que pessoas do mesmo sexo andam de mãos dadas, se beijam, se assumem, suscita perguntas, fornece ganchos para conversas, indagações, dúvidas. Isso é quase que inevitável. Com vontade, dá pra rolar altos papos com os pequenos!

Com a gente aconteceu isso. Não queríamos forçar um papo cabeça com o Mateus, ate porque ja conversamos sobre sexo, homossexualidade e afins outras vezes. Queríamos, sim, que antes de mais nada ele simplesmente visse (e soubesse, afinal, sua orientação sexual ainda esta por florescer).  E ele viu. Viu pessoas do mesmo sexo abraçadas, de mãos dadas, se acarinhando, e não me perguntou nada. Talvez, isso não o tenha surpreendido tanto assim.

Vimos também a molecada bêbada vomitando pelos cantos (o que já é tema para outra conversa, aliás). Nada que não role em outras festas que reúnam tanta gente. Segundo dados dos organizadores, mais de 3,5 milhões de pessoas passaram pela Paulista/Consolação na Parada. Ah, e já no final, vimos alguns travestis tirando os peitos pra fora.

O Mateus olhou constrangido, virou o rosto e não disse nada. A gente tampouco. Peito, então, é coisa que rola o tempo todo: na TV, na praia, no Carnaval… horrorizar por isso seria muita hipocrisia. Aliás, o que o horrorizou de fato foi um vendedor de cerveja pagando cofrinho na nossa frente. A visão não foi das mais agradáveis, admito. Rs.

Bom, mas, aí, ele começou a reparar nas placas e cartazes pendurados nos postes: “Vote por um Estado laico”, “Diga não à homofobia” e as perguntas começaram. Ele quis saber o que significava cada uma dessas frases e palavras de ordem, e nós explicamos, tentando tornar os conceitos os mais palatáveis possíveis.

Ele não rendeu muito a conversa, afinal, era muita informação para processar, mas, posso afirmar que do nosso lado estas perguntas nos deram uma oportunidade preciosa de conversar com o rebento de maneira natural e contextualizada. Elas deram filosofia para que o ele estava vendo na prática. E fortaleceram o propósito de nossa ida lá.

PS: Despolitizada, sim, está ficando a cobertura da imprensa, que entra ano, sai ano apela para o mesmo enfoque: o quanto o publico gay movimenta a economia, especialmente a paulistana, na época da Parada. São sempre os mesmos gerentes de hoteis, lojas e restaurantes fazendo sempre os mesmos comentários. Uma pauta absolutamente preguiçosa e burocrática.

Leia também:

- A parada gay, a pesquisa sobre adoção e a polêmica chata de sempre!

- Nunca chove na terra do arco-iris

- Parada Gay em São Paulo, 2010

Foto do Iphone.

6 Pitacos para o post “com os filhos na parada gay”

  1. em 06 Jun 2010 às 11:23 pm Juliane

    Adorei seu relato. Parabéns por ter uma relação tão lúcida com relação a isso com seus filhos. É nessas horas que a gente começa a acreditar que dá pra ter esperança de um mundo menos cruel.

  2. em 07 Jun 2010 às 8:35 am Andréia Nery

    Também estive por lá, mas sem as crias que já são mais do que adolescentes. Convidei-as, mas não quiseram ir. rs Vi muitas crianças. Algumas bem curiosas, mas com mães que não atendiam à esta curiosidade. Apenas puxavam seus filhos pelas mãos. Me deu uma certa tristeza e pena ao ver uma menininha olhando duas garotas se beijando. Um olhar curioso. A mãe ia na frente fumando um cigarro, conversando com as amigas. Bom seria se todas as mães conversassem com seus filhos e dessem a atenção que eles necessitam. Parabéns pela iniciativa e pelo texto. Beijos.

  3. em 07 Jun 2010 às 1:25 pm Gisela - Gi

    Também acho importante conversar, porque há muito estardalhaço por aí. Melhor sentar e bater um papo do que deixar o trabalho para a mídia, não é mesmo? Mas não dá pra forçar. O Matheus é virginiano, não é? É desconfiado.

  4. em 07 Jun 2010 às 3:57 pm Claudia Beatriz

    Van, acabei de fazer um post lá no blog, contando que no sábado estavamos no Magic Kingdom e estava rolando o GayDays2010 por lá. Estavam todos de camisa vermelha, milhares del@s e foi interessante ver as reações. Muita gente estranhando, mas eles estavam bem light, no maximo de mãos dadas e fora os saltitantes e escandalosinh@s. O D., de 2 anos, agarrou nas plumas de um, puxou conversa com outr@s, e o Nick, de 17, encarou numa boa. Eu também sou do time que prega a tolerância em primeiro lugar. Acho que eles devem sim aprender a conviver e respeitar, acima de tudo.

  5. em 07 Jun 2010 às 10:14 pm Leandro

    nao preciso dizer nada, preciso? sou seu fa! (e meu teclado é americano!) Parabéns e obrigado. beijao

  6. em 09 Jun 2010 às 10:47 am Natália

    Olá Vanessa!!!

    Novamente estou aqui a enriquecer-me com seus posts cheios de coerência e pensamentos antes não passados pelo crivo de minha razão.
    Enfim, achei interessante esta questão de levar a criança a conviver com uma realidade que hoje na sociedade tem-se tornado tão corriqueira. Talvez eu tenha gostado tanto pelo fato de eu ser homossexual e não saber ainda em como lidar com minha enteada-filha de 2 anos e 9 meses super questionadora, inteligente e que entende q ue sou casada com a mãe dela… Talvez o medo, aliás, a preservação excessiva de uma criança contra um preconceito que ela POSSA por ventura a viver é que realmente instaura o mesmo nos corações humanos. É necessário calar os canhões do preconceito a começar de nós mesmos.

    Beijão!

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