pela Terra e por quem vive nela
April 22nd, 2006 por vanessa
Callao é um balneário pertencente a Grande Lima. O lugar não tem exatamente uma data de fundação, mas foi o “Porto de Lima” durante o Vice-reinado espanhol. É lá, por exemplo, que se encontra o Forte Real de San Felipe, construção que remonta o século XVIII, quando Callao era o porto onde a Espanha embarcava todas as riquezas pilhadas por aqui rumo ao antigo continente. O Forte foi construído após um terremoto que destruiu a cidade. Callao também tem La Punta, onde é possível encontrar um casario singular, com forte influencia art-decó, além de restaurantes simples, baratos e delicosos.
Infelizmente, Callao não é feita somente de épicos, grandiloqüência e restaurantes recomendáveis. Atualmente, o local é permanentemente lembrado pelo índice de crianças contaminadas por chumbo.
Elas são, definitivamente, o retrato indiscutível do dano que a irresponsável exploração mineradora e o descaso do poder público têm causado a este país. Ano após ano, o problema tem sido manchete de jornal, objeto de estudo, protagonista de obvias promessas políticas e tema de escassos projetos. Mas, o que se observa é que por canto algum, há verdadeiramente uma luz que indique a real vontade política de solucionar essa emergência de saúde pública.
O envenenamento por chumbo afeta múltiplos sistemas do organismo humano, especialmente o sistema nervoso, renal, endócrino, ósseo gastrintestinal e cardiovascular. Nas crianças, esses sintomas se apresentam ainda com níveis baixos de chumbo no sangue, como os 10,1 mg/dl (microgramas por decilitro de sangre), recomendado pela a OMS. Em Callao, praticamente todas crianças da apresentam níveis bem mais altos que esta cifra.
Os sintomas mais conhecidos e preocupantes são aqueles que afetam o sistema nervoso, como déficit de atenção; transtornos de aprendizagem e de conduta; retardo do desenvolvimento pssicomotor; diminuição do coeficiente de inteligência, que pode chegar ao retraso mental; transtornos do desenvolvimento físico e da audição. Níveis muito altos podem levar a criança a convulsões e, finalmente, morte.
No Colégio Nacional “María Reiche”, no Assentamento Humano Puerto Nuevo, as crianças crescem rodeadas de fumaça e pedras. A região está infestada de depósitos ao ar livre, em sua maioria contendo zinco, chumbo, magnésio, cobre, ferro e carvão mineral. O problema se agrava porque as partículas do mineral descoberto são arrastadas pelo vento, entrando nas casas, se agarrando no asfalto, tetos, varais, cabelos e pele dos moradores. Aliado a isso está o fato de que Lima é a cidade que não chove e uma das mais poluídas do mundo. Já foram registrados índices de até 60 mg/dl de chumbo em crianças em idade escolar.
Resumo da Ópera: todos as crianças e adultos que vivem na região estão intoxicados e toda a área está contaminada. São pelo menos 80 mil pessoas afetadas.
O Peru é o quarto exportador mundial de chumbo. Segundo estatísticas do Ministério de Energia e Minas, pelo porto de Callao saem quase 220 toneladas métricas/ano, a maioria proveniente da serra central, transportada por trem e caminhão. Logo, o problema não está só nos depósitos e no transito dos barcos, mas em toda a rota por onde passa o material.
Como em La Oroya, distante uns 200 quilômetros de Lima e conhecida como a capital siderúrgica do país. É lá que vive María Guachos, que pensou que se mudando para parte mais alta do cerro estaria livre de perder outro filho, já que o mais velho morreu em conseqüência do pó negro que paira sobre o local. De nada adiantou. Seu segundo filho, Daniel, já mostra sintomas de contaminação: o menino tem dois anos, mas pesa e mede como uma criança de menos de um.
E a principal responsável por esta tragédia particular e por grande parte das outras que se reproduzem no país é a empresa americana Doe Run, uma das maiores metalúrgicas do mundo. Após várias denúncias e pressões, a empresa fechou um acordo com o Ministério da Saúde se comprometendo a fornecer atenção gratuita as crianças menores de seis anos e mães gestantes que estejam contaminadas por chumbo em La Oroya. Mas, é um convênio com prazo de validade: vence em julho deste ano.
É para a instituição mantida pela Doe Run que Maria Guachos vai levar o pequeno Daniel, que felizmente ainda está na idade de ser atendido. Dos outros, que já passaram da idade regulamentar de seis anos, ninguém cuida. E a contaminação continua.
As populações afetadas são as mais pobres do Peru. São aquelas que têm que usar baldes para se desfazer de seu coco porque suas casas não têm sistema de esgoto. São as mesmas que, ironicamente, trabalham para as empresas contaminadoras, a maioria sem receber nenhum beneficio. São aquelas que ninguém se importa. Como María Guacho e seu filho que, pela extrema pobreza e impossibilidade de mobilidade física e social, parecem estar condenados. Condenados a morte.
É possível falar muito mais sobre o problema, como o dano ambiental e social que a exploraçãoirresponsável das mineradoras causa aos locais onde se instala. Ela tira tudo da terra e da comunidade, desertifica o solo e deixa um rastro de pobreza, doenças e contaminação. Ela mata a vida ao redor. Mas, deixo a história de Maria Guacho e seu filho como a síntese de tudo isso.
Abaixo, excelentes links nos quais é possível encontrar informações detalhadas sobre o tema e como a população tem se organizado e reagido contra o problema.

Este cinza não é neblina e, sim, fumaça das chaminés. As flechas em vermelho apontam de onde elas saem
Links:
callao.org/plomo
vivatacademia
archivo.larepublica
tambogrande.org.pe/
Esta é uma blogagem coletiva pelo dia da Terra organizada por Lucia Malla. Mais tarde, publico todos os links.
Muito bom o seu post, eunão sabia de nada disto…
abs,
laura
E tem muito mais, Laura. Os indices sao impressionantes e a quantidade de cidades e, consequentemente, de pessoas afetadas é de chorar.
Chocante, Vanessa! é tanta gente abandonada nesse mundo, vivendo e morrendo pra sustentar o luxo dos países ricos… muito, muito triste…
E, para variar, quem mais sofre sao as mulheres e as criancas…
Que tristeza.
Sem dúvida.
Vanessa, altamente informativo seu post. Eu não sabia dessa história, mas não me admira q tenha sido “desprezada” pela grande mídia. Q lástima.
Eu me pergunto o q podemos fazer num caso desse… quando vc já tem uma população enorme “estragada”. Q deprê.
Beijos.
Lucia, sem querer parecer debochada com algo tao grave, o que eles precisam no momento é de uma Erin Brockovich, porque em todo o material que li, e olha que li um monte, nao vi nada falando de indenizacoes.
Se fala muito em atender as criancas atingidas, mas de indenizar as familias pela perda de entes queridos e da própria saúde, isso, ninguém fala. Nao traz ninguém de volta, mas historicamente ajuda a coibir, né?! Ao menos, mexendo no bolso das empresas, elas podem pensar duas vezes antes de tratar com tanto desprezo a populacao do entorno.
Beijos,
Quanta tristeza…
Quantos inocentes sofrendo…
Quanta destruição…
Fatos que me deixam arrasada, será que um dia isso terá fim?
Beijos, belo post informativo.
Com os mandátários que temos e o a política economica adotada por quase todo o mundo, acho que isso nao vai ter fim nunca…
Nossa, Manu, nao tinha ideia disso. Que ironia, hein?! Valeu pela informacao!
Beijoes,
Vanessa
impressionante!bj
e triste.
Fiquei impressionado. Mais ainda por nunca ter ouvido falar sobre essa tragédia. Ficou muito bom o texto.
Infelizmente, a tragédia acaba ficando paroquial. E o fato de nao alcancar limites além-mar alimenta mais ainda a impunidade. Ninguém sabe. Ninguém cobra.