wakna pampapi quinua wakarusca*
May 21st, 2006 por vanessa
- Mateus, facilita para eu terminar seu banho.
- Ah, faltam os chaques, né?!
- Os o que?!
- Os chaques!
- Que são chaques?!
- Os pés, pues!
- Chaque é pé?! Em que idioma?!
- Em quéchua, pues. E sabe o que são olhos?! Isso. E joelhos, aquilo. E boca, aquilo outro…
Enquanto vejo, maravilhada, meu filho de 4 anos me ensinando quéchua, idioma que o limenho médio renega como o próprio demo, me lembro de um artigo super bacaninha que li no suplemento literário do jornal deste domingo.
O texto era sobre os “watuchis”, jogos de adivinhação praticados pelos quéchua-hablantes que usam frases e expressões metafóricas sutis, eróticas ou irônicas e que desenvolvem a criatividade e o raciocínio de quem os joga. Sentados em círculo ou de frente um para o outro (se são apenas dois), eles participam de uma competição intelectual diante dos “watuchis”.
O “líder” da brincadeira costuma enunciar adivinhações super complicadas. Se o interlocutor não solucionar o enigma, será submetido as mais criativas, mas nunca ofensivas, sacanagens. O jogo é bem democrático e não tem barreira de idade, já que inclui desde vovós a crianças pequenas. As adivinhações vão ficando cada vez mais complexas a medida em que rola o jogo e só pode propor uma nova adivinhação aquele que tiver acertado a anterior.
“O ‘watuchi’ proporciona a agilidade mental e desenvolve o raciocínio. Além disso, sedimenta idéias relacionadas com a tradição oral. A expressão vem da raiz da palavra ‘watay’, que significa atar, amarrar. Metaforicamente, atar se refere a um processo de raciocínio verbal. Se atam dados para encontrar uma solução”, explica o doutor Manuel Larrú, especialista em Literatura quéchua da Universidade San Marcos.
Os enunciados de um “watuchi” são concretos. As perguntas e as respostas sempre se referem a temas cotidianos. Além disso, são sempre em versos, possuem ritmos e terminações fonéticas, fazendo com que a ultima palavra fique gravada na memória.
Segundo estudos realizados por Panez & Silva Consultores nas comunidades andinas de Ayacucho, o caráter funcional das adivinhações em quéchua favorece o desenvolvimento da criança andina rural, pois promove uma aprendizagem espontânea e ativa que permite recriar a realidade das crianças num esquema lúdico.
As adivinhações não ficam restritas apenas ao entorno natural dos andinos, como animais, vegetais e fenômenos da natureza. Também aparecem aquelas relacionadas a utensílios domésticos, temas sexuais e alimentos. Sem falar que está comprovado que os andinos são mais sensíveis a cor, ao movimento e ao som e que esses aspectos costumam estimular a criação de watuchis super elaborados, humanizando aspectos triviais do cotidiano.
Qawan achachau ukun añallaw.
Por fora assusta, por dentro é saboroso (tuna – fruta de cactos parecida ao kiwi).
Outra coisa é que os gostos temáticos das adivinhações variam de acordo as idades. Por exemplo, caspi satin, liwi lowi lluqsi (entra muito duro e sai bem flácido), cuja resposta é o macarrão, não seria adequado para uma criança, pelo sentido erótico. Além disso, existem aquelas relacionadas especificamente aos universos masculinos e femininos, como piña piña turucha tripata alsachkan (um touro filhote muito agressivo está levando sua tripa – agulha) ou, no caso dos homens, outras que dizem mais respeito as atividades agrícolas ou pecuárias, embora nestes campos, mulheres também atuem.
Mais adivinhações:
Altupi cruz, pampapi suytu rumi
Em cima, uma cruz. No terra, uma pedra ovalada (condor)
Frazada qipi payacha quispiramun
Chegou uma velhinha embrulhada num cobertor (ovelha)
Allapllata kichayqa, maykamapas risaqmi
Só me abra o caminho, que onde seja, eu vou (água)
Tuta chichukun punchau wachakun
De noite engravida, de dia dá a luz (cama – lindo esse, não é?!)
Qawan warmi ukun qari
Em cima, mulher. Por dentro, homem. (padre)
Ichupa chaupinpi llamapa yupin
No meio dos ichus há pegada da lhama (vagina)
Chankachaykita kichay, walichaykita qimpichakuy mikukurusqaiky
Levanta a saia para que se possa come-la (pamonha)
*En esa pampa está esparcida quinua (nestes pampas está espalhada quinua – espécie da farinha granulada). Resposta:.estrela
A doutora Rozario Peñez, autora do livro “Cultura recreacional andina”, assegura que, como a própria cultura, as adivinhações resistem ao tempo. Entretanto, o doutor Manuel Larru adverte que isso não significa que sua sobrevivência esteja garantida: “As culturas nascem, se desenvolvem e morrem. Tal como disse T. S. Elliot, ‘ nós, as culturas, somos mortais’. Os fenômenos de integração com outras influem poderosamente nas tradições orais. Quando em uma determinada política cultural não se promove o desenvolvimento desses aspectos, obviamente, elas desaparecem”.
Uma coisa é certa, os dois consideram que o “watuchi” permite assegurar a identidade por meio da tradição e incorpora novos elementos, despertando o afinamento da inteligência. Por isso, ambos propõem o diálogo que permita valorizar o espírito livre e criativo das adivinhações quéchuas, antes que seja tarde.
O seu filho aprende como, com os colegas, ou tem aula do idioma na escola?
Leila, quem ensina é a menina que me ajuda em casa. Um dia ela me perguntou se podia. Eu disse que, sim, claro, maravilhada com a possibilidade de o Mateus aprender esse idioma que para a gente parece tão inalcançável pela fonética. Ela começou e hoje em dia eles mantêm diálogos curtos, que só eles entendem. Ela diz que ele tem ótima pronúncia e aprende rápido e a perfeição.
Aqui não se ensina quéchua nas escolas, nem como curso opcional. O peruano médio fala muito bem o inglês, proporcionalmente mais do que no Brasil, e alguns até francês, mas o quéchua é renegado na capital. Os quechua-hablantes, sim, aprendem castelhano na escola e por isso são bilíngües, mas muitos, ao se mudar para Lima, nunca mais falam quéchua, nao ensinam os filhos e tentam imitar, sem sucesso, o sotaque local. Por medo do preconceito e também por preconceito deles mesmos.
Aliás, tem uma curiosidade para você que é do Rio. Alguns dizem que o Renato fala espanhol como um quechua-hablante. E isso por causa do sotaque carioca, com muitos chiados. É que o quéchua tem bastantes sons com ch.
hahahaha, gostei dessa: “caspi satin, liwi lowi lluqsi”!!!!
e dessa tb:”Chankachaykita kichay, walichaykita qimpichakuy mikukurusqaiky”
os incas já eram uns safadinhos!!!!
Vanessa, e como ficaria “O Livro dos Aforismos” em quíchua???
Que post maravilhoso, Vanessa! também ficaria morrendo de orgulho, se fosse você
Mas, quando você diz, pra Leila que “O peruano médio fala muito bem o inglês, proporcionalmente mais do que no Brasil, e alguns até francês” tá se referindo ao peruano de classe média, média alta, né?
Beijocas!
Heheheheheheh Serbon, o povo é milenar, deve ser muito mais sabido que a gente…
Agora, em relacao ao “O livro dos aforismos”, putz, Menino, é quase impossível de traduzir! Só um conhecedor mesmo, para tal.
Mas, vamos lá. Ao menos, eu tentei. Tive meio que desconstruir a coisa toda. A palavra “livro” nao se traduz (seria libro, como em espanhol) e “aforismos”, bem, o mais perto que chegamos foi:
Niwaychis (ditado, provérbio)
ou
Yachachiuachenqui (ensinar) kaman (eu) bidamanta yachanaipac (”moraleja” – moral da historia. Aqui vale uma nota: tive que explicar para a menina o que é moral da história e o que leva a isso, porque, segundo ela, nao existe essa expressao em quechua. Interessante, né?! )
A expressao “aforismos” é complicada de traduzir porque, finalmente, expressa um estilo de escrita com um determinado fim. Aí, o conceito é difícil até de explicar. Como voce bem pode ver, a traducao nao ficou das melhores…
Em espanhol, Aforismo pode ser também expressoes que vem fora, como anglicismo, e podem ser adaptadas ao idioma local sem mudarem sua grafia nem pronuncia, inlusive recebendo os artigos e acentos correspondentes. Essa definicao, nao encontrei no Houaiss por exemplo. Mas, neste caso, a traducao ficaria mais ou menos:
Jamoccunata Jawamanta (o que vem de fora)
Daí, voce escolhe a traducao preferida!
Beijos,
Vanessa
Denise, aqui tenho que fazer duas correcoes: quando digo peruano, quero dizer limenho (quando muito, arequipenho), ou seja, aquele que vive nos grandes centros. A outra é um pouco na linha do que voce destacou.
Nao posso falar do peruano médio na acepcao da palavra, claro. Mas, dentro do universo dos grandes centros (que sao pouquíssimos, já que a riqueza está praticamente concentrada em Lima), nao só os de classe média, média alta falam ingles. Os de classe mais baixa também.
Mesmo os menor poder aquisitivo se esforcam para matricular o filho numa escola particular. Evidentemente, nao uma de primeira linha, mas com um ensino melhor que as públicas que estao falidas. E mesmo nessas há ensino de ingles. Além disso, quando adolescentes ou já adultos, a maioria se matricula em cursos de ingles. Neste caso, a pessoa nao sai falando ingles fluentemente, mas com algumas boas nocoes para se virar (e migrar para os EUA, sonho da maioria absoluta dos peruanos. Fizeram uma pesquisa recentemente, e 96% da populacao quer sair do país).
Mas, tudo isso é uma conclusao meio empírica, que nunca vi nenhuma pesquisa nesse sentido.
Já os muito pobres, mal falam espanhol, caso clássico em qualquer país, a gente sabe. De qualquer maneira, salvo os quechua-hablantes, os muito pobres nao querem saber do quechua. Só aprende quem vem da serra, porque mesmo os filhos de quechua-hablantes, se vivem na capital, dificilmente aprendem o idioma-mae.
Beijos,
Vanessa
Hahahahahhahahahahahahahaha
Hhahahahahahhahahahahhahaha
Hahahahahahahahahha
Márcia, voce é ótima!
Van muito legal esse idioma que o Mateus está aprendendo. Mas seria mais fácil você ensinar pra ele a lingua do p né?
(p) vo(p) cê (p) não (p)a(p)cha?
bjs
pachomakaiavoc deruivichui