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ele voltou!

Ele é mais um desses artistas revisitados que junto com Reginaldo Rossi, Gretchen e Sidnei Magal, parece ter virado ídolo dos modernos e está até estrelando campanha da Mastercard com o seu clássico “Pare de tomar a pílula” “Vou tirar você deste lugar”.

O que eu não sabia é que ele foi excomungado por conta de um trabalho experimental que produziu na década de 70 – o LP “O filho de José e Maria”, que a igreja considerou ofensivo à imagem de Jesus.

Odair José foi excomungado por um padre de Campo Grande que durante a missa apenas disse: “Está excomungando o senhor Fulano de Tal pelo motivo tal…” Não fazia idéia que pra excomungar alguém fosse tão simples assim. Gente, na época da Inquisição pelo menos tinha julgamento! Fajuto, mas tinha.

Pessoalmente, acho que por menos praticante que uma pessoa seja, num país católico como o nosso, que impõe a religião desde o berço, ser excomungado não deve ser uma coisa fácil de digerir. Ainda mais por um motivo tão absurdo e de uma maneira tão bizarra. Sei lá, eu me sentiria estranhíssima.

Para acompanhar, ouça:

PS: Eu poderia ter colocado as clássicas: “Pare de tomar a pílula”, “Vou tirar você deste lugar” ou “Cadê você?!”, que eu adoro! Mas, preferi duas outras menos conhecidas, cujas versões ficaram maravilhosas. A primeira, “Deixe essa vergonha de lado”, com o Mundo Livre. E a segunda, “Ela voltou diferente”, com o Mombojó (do irmão da nossa companheira Denise, diga-se de passagem). As versões são simplesmente maravilhosas! Ouçam as duas!!!

PS 2: Tenho que admitir, outra coisa que me fez escolher estas duas interpretações foi o sotaque pernambucano, presente nos dois grupos e que eu simplesmente AMO! Coisa mais deliciosa.

PS 3: Não deixem de ler um artigo super bacana escrito pela pesquisadora francesa Naima Bouteldja e publicado no The Guardian. O texto dá uma interessante perspectiva sobre o tema Zidane e racismo. Lá no Tordesilhas.

No “leia mais”, trechos da interessantíssima entrevista do cantor Odair José ao Jornal da Tarde. (Valeu pela dica, Anselmo!)

Aqui, uma palhinha:

Como censuravam tanto alguém que nunca falou de política?
Não era só conteúdo político o que era censurado. A ditadura censurava conteúdo que julgava imoral. Uma vez me colocaram frente a frente com o General Golbery para saber porque censuraram uma música minha que se chama A Primeira Noite de um Homem. A música falava da primeira vez de um homem com uma mulher. Eu perguntei: ‘General, eu queria saber o que é que pode ser mudado?’ Ele me disse: ‘Pelo que estou vendo aqui, o que está proibido é a idéia’. Eles proibiam a idéia.

A gente vai ficando velho e ficando preconceituoso.
Ficando velho e ficando babaca.


Não se pode dizer que o senhor também fez canções de protesto?
Tive problemas com a ditadura porque alguns temas incomodavam essa sociedade falsa, hipócrita. Sempre cutuquei coisas que as pessoas não gostavam. O cara aceita que o filho dele transe com a empregada doméstica mas não aceita que ele se case com a empregada. O cara acha bacana sair do serviço e transar com uma prostituta antes de voltar para casa mas não aceita que um cantor diga que vai tirar uma puta de uma boate para casar com ela. Essa é a sociedade hipócrita.

Afinal, o que acontece? O senhor passa anos fora da mídia como um rejeitado e, de repente, grupos regravam suas músicas, pesquisadores lançam livros sobre sua vida, jornalistas o procuram e o senhor vira garoto-propaganda do Credicard?
Não sei mesmo. (…) Devo ter feito alguma coisa mesmo que vale a pena ser lembrada.

O senhor falou em censura. ‘Vou Tirar Você Desse Lugar’, música que canta no comercial, não foi censurada na época da ditadura?
As pessoas não sabem, mas a música Vou Tirar Você Desse Lugar foi a primeira obra com a qual a censura implicou. Foi a partir dali, em 1972, que a ditadura passou a olhar meu trabalho de lado. Achavam que a frase se referia aos militares, que era para tirar eles do poder.

Os militares o chamaram?
Não, porque essa música vendeu 1 milhão de compactos na época. E naquela ocasião não existiam tantos toca-discos no Brasil. A música vendeu mais discos do que a existência do aparelho. Fizeram uma reportagem na época perguntando às pessoas por que elas compravam aquele disco se nem tinham o aparelho. E elas respondiam: “Estou comprando porque quando comprar o aparelho vou ter o disco.” A partir dessa música a censura se tornou um co-produtor dos meus discos.

Como censuravam tanto alguém que nunca falou de política?
Não era só conteúdo político o que era censurado. A ditadura censurava conteúdo que julgava imoral. Uma vez me colocaram frente a frente com o General Golbery para saber porque censuraram uma música minha que se chama A Primeira Noite de um Homem. A música falava da primeira vez de um homem com uma mulher. Eu perguntei: ‘General, eu queria saber o que é que pode ser mudado?’ Ele me disse: ‘Pelo que estou vendo aqui, o que está proibido é a idéia’. Eles proibiam a idéia.

A gente vai ficando velho e ficando preconceituoso.
Ficando velho e ficando babaca.

Há a idéia de que música boa é música difícil.
É muito difícil fazer uma música de três acordes, mais difícil do que fazer uma música cheia de acordes. Vi o Carlos Lyra falando em uma entrevista como se a música dele estivesse acima do bem e do mal, como se fizesse a música suprema, além da perfeição. Não há a coisa do tipo ‘nós da bossa nova’ ou ‘nós de Ipanema’. O músico não pode ter essa visão. ‘Nós somos especiais, então você que anda de ônibus não cante nossa música’. Até porque o cantor-mor da bossa nova, João Gilberto, veio do interior da Bahia e nunca foi garoto de Ipanema.

Há muitos músicos que desprezam música de três acordes.
Manda fazer uma. É a coisa mais difícil que tem. Parabéns pra Você tem três acordes, faça outra! O Luiz Gonzaga com Asa Branca. Quando os Beatles pensaram em gravar uma música brasileira, não pensaram em bossa nova. Pensaram em Asa Branca, do Luiz Gonzaga. Chegaram até a fazer os arranjos, só não saiu no disco. Na hora do vamos ver, mudaram de idéia.

Essa história é verdade mesmo?
Sim, o Luiz Gonzaga já estava contando com a grana que ia receber e com o prestígio que isso iria dar. Essa história aconteceu. Soubemos que os Beatles chegaram a bolar arranjos, mas o projeto não virou.

Qual é o melhor Odair José?
É o que narra histórias. A nostalgia, a saudade, o amor e a dor- de- cotovelo batem no coração de um pedreiro da mesmo forma que batem no coração do intelectual. A dor de ver uma mulher que se ama ir embora é a mesma para todo mundo.

Mas um intelectual de fossa vai ouvir Mozart.
Não importa, a saudade vai ser a mesma. A vontade de chorar vai ser a mesma, a insônia vai ser a mesma. E é nesse tipo de coisa que eu sou bom.

Achei a entrevista toa boa, que praticamente reproduzi na integra. Ainda assim, se alguém quiser a versão completa, aqui.

30 Pitacos para o post “ele voltou!”

  1. em 12 Jul 2006 às 12:24 am Jack

    Adoro eu vou tirar voce desse lugar … guardadas as proporcoes , seria bom a gente mudar de pais , o pais todo mudando pra onde os politicos e a selecao nao estivessem!!

    Jack the Piluler

  2. em 12 Jul 2006 às 9:15 am Flávio

    Vane, realmente tenho visto a galera mais nova baixar músicas do Odair José… meu filho de 19 anos, inclusive! Eu vivi o tempo de sucesso dele e nós, adolescentes da época, o considerávamos assim meio brega… tipo Reginaldo Rossi, entende?
    Depois que cresci, passei a valorizar mais as criações dele. Vc já notou as letras? Legais e criativas! :)

  3. em 12 Jul 2006 às 9:58 am Serbon

    eu baixei “o filho de josé e maria”. fiquei impressionado com o disco. é um álbum conceitual, bem roqueiro mesmo. te mando por mail algumas faixas se vc quiser.
    gostei mesmo.
    é muito melhor do que muito cantorzinho de hoje grava pela Trama – leia-se Pedros Camargos, Jairzinhos e filhos do Simonal.

  4. em 12 Jul 2006 às 10:01 am Serbon

    ah, e nada como o tempo – é o melhor crítico de arte. Black Sabbath, Kiss, Burt Bacharach eram execrados pela crítica da época.
    Van Gogh vendeu poucos quadros.
    Lembro de um texto do Zeca Camargo, em 1994, na extinta revista General:”daqui a dez anos não ouviremos falar em Tarantino.”
    éééé……

  5. em 12 Jul 2006 às 10:30 am Leila

    Eu não consigo achar bom o Odair José, no máximo ele é clássico brega. Versões com bandas modernas e bacanas melhoram qualquer coisa! :)

  6. em 12 Jul 2006 às 11:06 am Denise Arcoverde

    Van, eu estou LOUCA pra puxar esse CD e não encontrei em lugar nenhum… dá pra você zipar e mandar pra mim? ;-)

    Eu acho o máximo essa revisitadas!

  7. em 12 Jul 2006 às 11:12 am vanessa

    Hhehehehehe Jack, na verdade, melhor do que isso é, ao invés de “tirar”, “botar” certos políticos desse lugar… :-)

    Serbon, eu quero, eu quero, eu quero!!! “O filho de José e Maria” deve ser ótimo mesmo. Pelo que li, vale a pena. Na entrevista mesmo ele diz que se afastou dessa linha porque era complicado pra as pessoas entenderem e voltou pra o “Pare de tomar a pílula”. Manda algumas coisas que depois baixo resto!

  8. em 12 Jul 2006 às 11:14 am vanessa

    Leila, essas versoes estao ótimas e como disse o Flávio as letras sao até bacanas. Algumas, sao realmente boas. Eu gosto! E só nao botei uma versao original, cantada por ele, porque nao encontrei.

    Denise, voce quer o cd de tributo, né?! Mando, sim. Esse cd está sensacional. As interpretacoes estao incríveis. Só nao tem “pare de tomar a pílula” que eu ouvi cantada pelo Oto dia desses e ficou maravilhoso! Pena que nao entrou no CD.

    Beijos,
    Vanessa

  9. em 12 Jul 2006 às 11:15 am Flávio

    Serbon, eu lembro dessa fase do Van Gogh… não foi que ele que disse que se a coisa continuasse brava daquele jeito, ia ter que comer a orelha? :)
    Qto ao Zeca CháAmargo, ele já era inteligente assim naquela época? :)

  10. em 12 Jul 2006 às 11:20 am vanessa

    Hheheheheh Flávio, voce é mau igual ao Serbon, hein?! ;-)

  11. em 12 Jul 2006 às 2:14 pm

    Essas duas versões estão maravilhosas. Acho que só gosto de ouvir Odair José quando não é Odair José que canta,

    Aviso aos navegantes (que moram ou vêm a Bsb)
    O CCBB- Bsb está promovendo uns encontros, digamos, inusitados durante esse mês de julho. Com a apresentação de Elke Maravilha (sim, ela mesma), os shows contam com as seguintes duplas:
    - Marcio Greick e Zeca Baleiro (rolou nesse último final de semana – ingressos impossíveis de se conseguir)
    - Odair José e MV Bill – nesse próximo final de semana;
    - Wando e Rita Ribeiro.

    Aliás, alguém pode me explicar o que é o Wando?

  12. em 12 Jul 2006 às 2:43 pm vanessa

    Hheheheh , na entrevista do Odair Jose ele fala deste show com o MV Bill! Deve ser ótimo mesmo!

    Do Wando ainda é complicado gostar porque ele se leva a sério. Mas, quem nunca cantou “meu ia-ia, meu io-io…” que atire a primeira pedra!

    Ah, sabe que uma conhecida se casou ao som de: “Moca, sei que já nao es pura…” É mole ou quer mais?!

  13. em 12 Jul 2006 às 3:17 pm Anselmo

    Confesso que não consigo gostar, me divirto,talvez. Mas, o fato é que a entrevista me fascinou pela naturalidade.

    Aliás, acho que todos estes cantores”bregas” dão uma boa estória para contar pois eles aprendem de tudo na vida prá sobreviver. É curioso, mas quando ficamos mais velhos ficamos babacas, mas um pouco mais compreensivos.bjs

  14. em 12 Jul 2006 às 3:22 pm vanessa

    Eu gostei muito da entrevista. Gostei até das estocadas que ele dá nos elitizados Tom Jobim, Carlos Lyra e etc e tal! ;-)
    Beijos e mais uma vez valeu pela dica!
    Vanessa

  15. em 12 Jul 2006 às 3:23 pm

    Nos shows do Nando Reis, tem uma parte que ele chama de Bailão do Ruivão, onde ele canta algumas pérolas, uma delas inclusive é “meu ia-ia, meu io-io…” . A galera praticamente entra em êxtase. ;-)

  16. em 12 Jul 2006 às 3:24 pm vanessa

    Eu sabia! Todo o mundo gosta e, mais ainda, sabe cantar! Igual a Rosana em “Como uma deusa”! Duvidar, a gente sabe até fazer a coreografia, com as maos no rosto, lembra?! ;-)

  17. em 12 Jul 2006 às 4:33 pm Flávio

    Vanessa, sou não… a maldade do serbon é incomparável! :)

  18. em 12 Jul 2006 às 5:30 pm Serbon

    “..e digo não digo não digo não não não…
    levar a garota ao cinema é uma coisa normal, mas é que eu tenho que manter a minha fama de mau…”

  19. em 12 Jul 2006 às 5:31 pm Serbon

    eu respeito muito mais um Odair José do que estes babaquinhas filhinhos de papai da gravadora Trama. leiam “Eu não sou cachorro não” do Paulo Cesar Araujo, é uma visão extraordinária sobre os artistas bregas dos anos 70.

  20. em 12 Jul 2006 às 5:45 pm vanessa

    Hahahahhahahahahahahahhahahah
    Eu tenho medo do Serbon! ;-)

  21. em 12 Jul 2006 às 6:03 pm vanessa

    Ah, Serbon, o Odair José também é super fã do Paul McCartney. Para ele, o maior músico do mundo. “No instrumento e em tudo, não tem cara igual, tá provado”. Li aqui.

  22. em 12 Jul 2006 às 7:25 pm Marcia Kawabe

    Van eu me lembrava do nome mas só fui me tocar que ele era ele no comercial da tv. Eu não conheço essas duas músicas que vc colocou aqui, mas eu gosto mais da música do comercial :)

  23. em 13 Jul 2006 às 7:06 am Palpiteira

    Van, sabe que eu tomei um choque quando vi esse cara na TV? :)

  24. em 13 Jul 2006 às 9:52 am Biajoni

    ele é massa!

  25. em 13 Jul 2006 às 10:49 am vanessa

    Marcinha, a música do comercial é super conhecida e muito boa, realmente. Mas, eu adorei essas duas, principalmente nessas interpretacoes tao legais dos meninos de Pernambuco.

    Hhehehehehe, tomou choque por que, Claudinha?! Porque ele parece estar ressurgindo das tumbas?! :-)

    Biajoni, acabei de ouvir a primeira música do LP que lhe valeu a excomunhao: “O filho de José e Maria” e achei incrivel! Ele é massa mesmo! :-)

  26. em 13 Jul 2006 às 11:57 am Serbon

    menina Vanessa, não vou dar o peixe, vou ensiar a pescar: o álbum inteiro tá aqui:

    http://rapidshare.de/files/22506258/odair_jos__-_o_filho_de_jos__e_maria.rar.html

  27. em 13 Jul 2006 às 11:59 am vanessa

    Obrigadíssima, Menino Serbon! E tá pra quem quiser, o que é melhor ainda.

    Gente, recomendo. Ouvi uma amostra gratis e é ótimo!

  28. em 06 Aug 2006 às 8:31 pm Sandro Belo

    Caros,

    Que bom que apreciaram o “Tributo a Odair José” e lembrem-se para cobrir os custos do mesmo, vocês têm que comprar o disquinho…

    O preço é bem camarada, abaixo de
    R$ 20,00 e tem um senhor lay-out e encarte.

    Sandro Belo – Allegro Discos

  29. em 06 Aug 2006 às 9:36 pm vanessa

    Oi Sandro, nao sei se voce percebeu, mas as músicas que coloquei no site nao podem ser copiadas, só ouvidas, por causa do sistema em flash.

    O que eu quero é divulgar mesmo o trabalho do Odair José e, especialmente, o cd de tributo, que está sensacional. Vou fazer propaganda do site!
    Beijos e obrigada pela visita,
    Vanessa

  30. [...] Odair José até excomungado foi, por conta do “Pare de tomar a pílula”, como já conversamos aqui no Inconfidência tempos atrás. Mais um motivo para revisitarmos nossos rótulos e gostos e assim conseguir apreciar [...]

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